1 ago Aleitamento Materno

Amamentação exclusiva: Isto também passará


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por Maíra Scombatti

Como integrante da equipe da Casa Curumim, recebi um e-mail com um convite – direcionado aos profissionais que têm envolvimento com a amamentação – para a escrita de um artigo sobre aleitamento materno. Inicialmente pensei que não era o caso para um artigo meu, já que costumo atuar mais com crianças “maiorzinhas” e famílias com questões que surgem depois dos períodos de amamentação. Mas, logo em seguida, fiquei com vontade de contribuir. Afinal, além de contar com a experiência de ser mãe de dois garotões, gosto bastante de refletir com os textos de uma outra psicopedagoga, a argentina Laura Gutman.

Como mãe, passei por inúmeras questões durante o processo de amamentação do meu primeiro filho. Como muitas das mulheres ocidentais, vivia o dilema: quero amamentar em livre demanda, mas quero também manter minha autonomia e liberdade. Por vezes me sentia completamente presa à “obrigação” de amamentar. E os seis primeiros meses passaram devagar, com noites que pareciam séculos intermináveis… Por fim, “venci” o desafio da exclusividade do primeiro semestre e continuei amamentando por bastante tempo. Com ajuda de bons profissionais e boas leituras, aos poucos fui relaxando e percebendo que também na maternidade tudo passa. Não, não dava para “desatarrachar” o peito e deixar o bebê mamando enquanto eu saía para espairecer um pouco, mas dava para respirar e buscar a beleza de cada momento, com aceitação e presença.

Mamilos rachados, mastites, noites completamente insones… como diz uma antiga história Sufi: “isto também passará”. E os momentos deliciosos, do bebê relaxado em nosso colo, olho no olho, aquela risadinha de êxtase pós mamada, cheirinho de aconchego no ar? “Isto também passará”.

Com meu segundo filho, fico ainda com vontade de “congelar” os momentos sublimes do amamentar… Mas sinto, de verdade, que a amamentação é vida e a vida é assim; intensa, impermanente, exigente no que se refere a nossa presença para aproveitar seus presentes. E os seis primeiros meses do segundo passaram voando e cá estou eu já com um pouco de tempo e autonomia para refletir sobre todo esse processo.

Laura Gutman diz que muitas de nós mulheres contemporâneas e ocidentais temos o costume de nos preparar para o parto, mas não para a maternidade. “Ou, em todo caso, não nos preparamos para abandonar a autonomia que adquirimos com muito esforço e vontade. Portanto, digamos com todas as letras: para dar de mamar temos que estar dispostas a perder toda a autonomia, liberdade e tempo para nós mesmas. É uma decisão. Na medida em que optemos por uma modalidade, perderemos vantagens na outra”.

Se eu tivesse lido o trecho acima durante a experiência com meu primogênito, talvez ficasse ainda mais ansiosa. Mas agora leio com os olhos da vida em transformação. Sim, é preciso abandonar a ideia de liberdade e autonomia para amamentar em livre demanda e exclusivamente durante os primeiros seis meses do bebê, mas “isto também passará” e, assim como gradualmente o bebê vai ganhando sua autonomia, nós mães vamos redescobrindo a nossa, revendo nossas prioridades, conquistando novos espaços e tempos. E vale a pena!

Para finalizar, deixo aqui outros trechos de textos da Laura Gutman, que avalio como úteis  para novas reflexões, conscientização e apoio à amamentação nesta Semana Mundial de Aleitamento 2013:

Quando o bebê nasce, o reflexo de sucção é muito intenso. Como as palavras indicam, ele age sob o reflexo de procurar, encontrar e sugar o leite materno. Para isso, é preciso que o bebê fique perto do peito. Muito tempo. Todo o tempo. Porque o estímulo é o corpo da mãe, o cheiro, o tom, o ritmo cardíaco, o calor, a voz, enfim, tudo que ele conhece.
 Como nas relações amorosas - e trata-se disso -, precisamos de tempo e privacidade. As mulheres precisam entrar em comunicação com o homem para aceitar o ato sexual. Não diferença no ato de amamentar. O bebê precisa estar informado para sentir o contato e poder sugar, e as mulheres, para produzir leite e gerar amor. Simples assim.
Se
recordarmos que o leite materno não é apenas alimento, mas, sobretudo, amor, comunicação, apoio, presença, abrigo, calor, palavra, sentido, acharemos absurdo negar o peito porque “não precisa”, “já comeu” ou “é manha”. Então, é manha quando precisamos de um abraço prolongado do homem que amamos?

 ”Dar de mamar é se despojar das mentiras que nos contamos durante toda a vida sobre quem somos ou quem deveríamos ser. É estarmos soltas, poderosas, famintas, como lobas, leoas, tigresas, cangurus, ou gatas. Muito semelhantes às mamíferas de outras espécies em seu total apego pelas crias, ignorando o resto da comunidade, mas atentas milimetricamente, às necessidades do recém-nascido.

Extasiadas diante do milagre, tentando reconhecer que fomos nós mesmas que o tornamos possível, e nos reencontrando com o que é sublime.

 Amamentar nossos bebês é ecológico no sentido mais amplo da palavra. É voltar a ser o que somos. (). E para conseguir isso, é indispensável procurar proteção, estando sempre centradas na sabedoria poderosa e natural de nosso coração.

Imagem: arquivo pessoal (momentos da amamentação durante os 6 primeiros meses do meu caçula, Ian)

Bibliografia: Gutman, Laura

     La revolución de las madres: el desafío de nutrir a nuestros hijos / Laura Gutman; coordinado por Tomás Lambré.- 1a ed.- Buenos Aires: Del Nuevo Extremo, 2008.

     A maternidade e o encontro com a própria sombra: o resgate do relacionamento entre mães e filhos./ Laura Gutman; tradução: Luís Carlos cabral. – Rio de Janeiro: BestSeller, 2010.

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