4 ago Aleitamento Materno

As bactérias do leite materno


Por Rachel Francischi, Nutricionista da Casa Curumim

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Sim, o leite materno contém bactérias! E elas são muito desejadas, por mais estranho que possa parecer. Os micróbios do leite materno ajudam no desenvolvimento e amadurecimento do sistema imunológico do bebê, na resistência contra infecções e até mesmo na proteção contra o aparecimento de alergias e asma na infância!

O contato com essas bactérias saudáveis da mãe é extremamente importante para o desenvolvimento infantil. Partos tipo cesarianas e o uso de leite artificial vêm contribuindo para o aumento de alergias e doenças mediadas pelo sistema imunológico devido à falta da exposição do bebê às saudáveis bactérias maternas.

Então vamos entender um pouco melhor desse assunto:

Nós temos trilhões de bactérias no nosso intestino. Essas bactérias são chamadas de microbiota intestinal. Já foram identificadas mais de 500 espécies diferentes, sendo algumas muito saudáveis e outras nem tanto. Uma microbiota intestinal adequada depende de vários fatores, como nascimento por parto normal, aleitamento materno e consumo de dieta equilibrada. A microbiota equilibrada e saudável traz muitos benefícios para o ser humano:

- produção de vitaminas (vitamina K, vitamina B12) para o nosso corpo;
- modulação do funcionamento do nosso sistema imunológico, diminuição de alergias e de doenças inflamatórias;
- regulação do funcionamento do intestino;
- formação de barreira intestinal para impedir a entrada de patógenos (os outros micróbios causadores de doença);
- melhora na absorção de nutrientes, tais como ferro, zinco e vitamina D;
- modulação do funcionamento do sistema nervoso (através do eixo de comunicação intestino-cérebro): emoções e comportamentos ligados à depressão, ansiedade, estresse, memória, aprendizagem, e até mesmo autismo;
- regulação da sensação de saciedade, do desenvolvimento da obesidade e do diabetes mellitus.

No entanto, fatores como o uso de medicamentos, a alimentação desbalanceada, o estresse físico e/ou mental podem desequilibrar nossa população de bactérias do “bem” e do “mal” no intestino. E aí todos esses benefícios para a saúde podem ser perdidos!

Assim como no intestino, há também centenas de espécies de bactérias no leite humano, e há uma grande variação dos tipos de bactérias de mãe para mãe. O leite materno é um alimento probiótico por natureza! As bactérias variam desde o colostro e ao longo dos meses de amamentação, uma sabedoria impressionante para garantir ao bebê as melhores bactérias possíveis em cada etapa do seu crescimento.

E como as bactérias chegam até o leite materno? Os cientistas ainda estão descobrindo os mecanismos exatos e acreditam que existe uma conexão através das circulações sanguínea e linfática, desde o intestino da mãe até as glândulas mamárias.

Até bem pouco tempo atrás, acreditava-se que era somente no trabalho de parto que o bebê entrava em contato por primeira vez com as bactérias maternas para formar a sua microbiota intestinal. No parto normal, sabemos que bebê é colonizado especialmente por bactérias saudáveis naturalmente presentes na vagina e na pele materna, diferentemente do parto cesárea. Nos últimos anos, a descoberta de bactérias maternas também no cordão umbilical, no líquido amniótico, nas membranas fetais e no mecônio de bebês saudáveis contraria a ideia que o útero seja um ambiente estéril. Os estudos recentes sugerem que desde o útero o bebê já está em contato com as bactérias da mãe.

Ou seja, os tipos de bactérias que o feto encontra no útero da mãe, e não só no tipo de parto e no tipo de aleitamento (materno ou artificial), podem influenciar a programação metabólica que esse bebê terá ao longo de toda a vida!

E parece que até mesmo a cólica do recém-nascido pode ter relação com a microbiota não saudável no intestino da mãe e consequentemente do bebê. A teoria dos pesquisadores é que a microbiota não saudável do bebê pode alterar a junção das células intestinais, interferindo na motilidade e permeabilidade do intestino do bebê (através de processos inflamatórios, nervosos e/ou hormonais), podendo causar dores abdominais e cólicas no recém-nascido.

Tudo isso ainda é muito novo na ciência, as hipóteses ainda estão sendo testadas para que possamos atuar tanto na prevenção como no tratamento de cólicas, alergias e doenças. Mas já sabemos que quanto mais saudáveis forem os tipos de bactérias no intestino da mãe e consequentemente no útero e no leite materno, melhor será o desenvolvimento do bebê, especialmente do seu sistema imunológico.

E claro que sabemos que o leite materno é sempre superior a qualquer leite artificial, independentemente da microbiota materna. Sempre, sempre mesmo, o leite materno será o melhor alimento para o bebê independente da microbiota materna! E a ciência ainda está descobrindo como podemos melhorar ainda mais os tipos de bactérias do leite materno…

Sabemos que a variedade de bactérias saudáveis no nosso intestino diminuiu muito nas últimas décadas, principalmente pelo crescimento da urbanização e do uso de antibióticos. O alto grau de processamento/industrialização da nossa comida também interferiu na nossa microbiota. Não é de se surpreender que o tipo de bactérias no leite de mães de áreas rurais tende a ser mais saudável do que no leite de mães de áreas urbanas.

Os estudos apontam que a qualidade da dieta materna desde a gestação e consequentemente o perfil de bactérias do intestino da mãe modulariam quais os tipos de bactérias que fazem parte da vida uterina, do parto, do aleitamento e consequentemente da microbiota do bebê.

Se você quer ter bactérias saudáveis e transmitir ainda mais bactérias saudáveis pelo seu leite materno, cuide especialmente da sua dieta. O quê comemos alimenta as populações das nossas bactérias! E se queremos que o leite materno tenha colônias de bactérias das mais saudáveis que existem, cuidemos da dieta materna desde a gestação.

Caprichar nos alimentos naturais e ricos em fibras, especialmente as verduras, frutas e legumes naturais, os grãos integrais, a aveia, os feijões, os alimentos com nenhum ou menor grau de industrialização como os iogurtes naturais, poucos doces/açúcares e pouca farinha branca, pouca ou nenhuma fritura ou gordura hidrogenada, moderação no consumo de carnes e alimentos de origem animal são algumas dicas que podem ajudar na colonização e permanência da maior variedade de bactérias saudáveis na nossa microbiota intestinal.

O uso de probióticos (organismos vivos ingeridos que conferem benefícios para a nossa saúde) na dieta materna desde a gestação e no pós-parto também pode ser indicado, dependendo do estado nutricional materno.

Já sabíamos que a nutrição materna era fundamental para o crescimento e desenvolvimento do bebê durante a gestação e amamentação. Agora os estudos da microbiota ampliam a importância da alimentação saudável materna para várias outras áreas da saúde infantil. Cuidemos com carinho das nossas bactérias!

Referências

Bode L, McGuire M, Rodriguez JM, Geddes DT, Hassiotou F, Hartmann PE, McGuire MK. It’s alive: microbes and cells in human milk and their potential benefits to mother and infant. Adv Nutr. 2014 5(5):571-3.

Conlon MA, Bird AR. The Impact of Diet and Lifestyle on Gut Microbiota and Human Health. Nutrients. 2015;7(1):17-44.

Funkhouser LJ, Bordenstein SR. Mom knows best: the universality of maternal microbial transmission. PLoS Biol. 2013;11(8):e1001631.

Liu X, Cao S, Zhang X. Modulation of Gut Microbiota-Brain Axis by Probiotics, Prebiotics, and Diet. J Agric Food Chem. 2015 Sep 16;63(36):7885-95.

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