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27 mar Temas em Pediatria

Sobrepeso e obesidade infantil: sem idealismos, nem radicalismos.


Por Rachel Francischi, nutricionista.

www.usnews

As pesquisas de Demografia e Saúde, feitas conjuntamente pelo Ministério da Saúde e o IBGE, confirmam dados alarmantes do aumento no número de crianças com obesidade no Brasil: nos últimos vinte anos, as prevalências de obesidade em crianças entre 5 a 9 anos foram multiplicadas por quatro entre os meninos (4,1% para 16,6%) e por, praticamente, cinco entre as meninas (2,4% para 11,8%).

Muitas famílias acham erroneamente que criança cheia de dobrinhas e “bem fofinha” é uma criança saudável. Mas quais são as consequências da obesidade na infância?

Crianças obesas têm maiores riscos de sofrer problemas cardiovasculares, como colesterol alto e hipertensão, resistência à insulina e pre-diabetes, problemas ósseos e articulares, dificuldades respiratórias como a apnea do sono e são mais susceptíveis a problemas psicológicos e sociais como a estigmatização, preconceito, bullying, baixa auto-estima e até mesmo depressão! A obesidade infantil aumenta o risco de esta criança ser um adulto obeso e de sofrer morte prematura.

As crianças e os adolescentes obesos de hoje têm muito mais chance de serem adultos obesos no futuro, e assim têm maiores riscos de sofrer do coração, infarto, diabetes tipo 2, osteoartrite e vários tipos de câncer (mama, cólon, endométrio, esôfago, rins, pâncreas, tireoide, ovário, próstata, etc).

O melhor caminho é realmente a prevenção segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), pois tanto o sobrepeso como a obesidade podem ser prevenidas!

Os primeiros anos de vida são muito importantes na prevenção: aleitamento materno exclusivo até sexto mês de vida e continuado até pelo menos os dois anos de idade, introdução alimentar adequada com alimentos naturais e variados, nenhuma ingestão de açúcar até os dois anos de idade, por exemplo, ajudarão na formação de uma microbiota intestinal saudável, na educação de um paladar saudável, e na adoção de bons hábitos alimentares que seguirão por toda a vida!

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Especialmente na infância, a OMS e o Ministério da Saúde sugerem:

O aumento no consumo de frutas, verduras e legumes é prioritário, assim como grãos integrais e os alimentos naturais ou minimamente processados.

A quantidade de calorias e de gordura deve ser controlada, e isso significa restringir o consumo especialmente de produtos ultra-processados (industrializados como bolachas, salgadinhos, embutidos, macarrão instantâneo, salsichas, sucos de caixinha, refrigerantes, guloseimas em geral, etc) e de açúcar;

Ser fisicamente ativo: no mínimo 60 minutos de exercícios regulares moderados ou intensos, todos os dias.

Especial atenção dou ao tema do processamento dos alimentos. Embora o ultra-processamento dê origem a produtos que não estragam rapidamente, que agradam facilmente o paladar, e que demandam mínima – ou nenhuma – preparação culinária, há enorme perda de nutrientes (especialmente vitaminas e minerais), fibras e água. A presença de aditivos químicos, a quantidade excessiva de gorduras não saudáveis, açúcar e sódio, além do estímulo ao excesso de consumo de energia completam a lista dos malefícios de comer produtos altamente industrializados com frequência…

Estudos já documentaram que, em seu conjunto, quando comparados aos alimentos minimamente processados, os produtos ultra-processados tendem a apresentar mais açúcar, mais gordura saturada, mais sódio, menos fibra e maior densidade energética (mais calorias). Também contém menos vitaminas e minerais. São produtos para serem consumidos apenas de vez em quando e olhe lá, e não diariamente como vejo na rotina de muitas crianças.

A alta densidade energética não é a única justificativa da associação entre o consumo dos ultra-processados à obesidade, especialmente a infantil. Também entram na conta a ingestão de ‘calorias líquidas’ (as bebidas adoçadas e muito calóricas, com sucos de caixinha e refrigerantes) que não trazem saciedade; a hiperpalatabilidade, estimulando o consumo do alimento mesmo quando a pessoa se sente ‘satisfeita’ (esses alimentos são muito saborosos); a adição de químicos que, entre outros fatores, podem interferir com a microbiota humana e a saciedade; a prática do comer sem atenção (comer automaticamente) e do consumo de porções muito grandes; além de ações de marketing agressivas, especialmente para crianças– por parte da indústria. O marketing dos produtos ultra-processados promove o comer compulsivo!

Segundo pesquisadores da USP, dados de 2009 demonstram que estes alimentos representavam quase 28% do total calórico da cesta nacional de alimentos brasileira, e com tendência a crescer.

E como devemos lidar quando uma criança está com obesidade?

O processo para a redução da obesidade envolve a mudança de hábitos de toda a família, e não apenas da criança.

A estigmatização, bullying e baixa auto-estima da criança que sofre de obesidade são frequentes e podem ser trágicas para a criança. Isso também vale para a proibição no consumo de determinados alimentos que a criança gosta e está acostumada a comer. Imagine a família toda degustando uma sobremesa e a criança com obesidade é privada desse convívio. Tudo isso pode desencadear transtornos alimentares, como compulsão alimentar, anorexia e bulimia, que são doenças gravíssimas. A alimentação é um prazer e um encontro social, e precisamos encontrar formas de ajudar a criança (e toda a família) a ter uma alimentação mais saudável, e sem radicalismos!

Outro ponto importante: estigmatizar a criança, colocando um rótulo de obesa ou gordinha, pode agravar a obesidade na idade adulta! Um estudo recente com 500 mulheres adultas encontrou que a insatisfação com o peso estava diretamente relacionada ao fato delas se lembrarem de seus pais fazendo algum tipo de comentário negativo sobre seus corpos quando jovens, independente do seu IMC. E quanto mais comentários dos pais sobre o corpo de suas filhas e sobre o quanto elas comiam, maior o IMC dessas mulheres. Ou seja, é provável que aquela família que busca “ajudar” seu filho contando a ele sobre a sua obesidade, controlando a sua alimentação e comentando sobre seu corpo, podem piorar o quadro no longo prazo.

E o que fazemos então?

Precisamos focar em melhorar o comportamento e estilo de vida das famílias, e não focar na redução do peso da criança. Evitamos a todo custo o controle rigoroso sobre a criança!

Por exemplo, se queremos que nosso filho coma menos salgadinhos e guloseimas entre as refeições, precisamos comprar mais frutas; precisamos frequentar mais feiras livres e menos a sessão de produtos ultra-processados do supermercado (evitar passar nos corredores de salgadinhos, refrigerantes, biscoitos, macarrões instantâneo, salsichas e embutidos dos mercados); precisamos ser criativos para inventar refeições caseiras práticas e nutritivas, em vez de abrir uma caixa de comida congelada ou pedir uma pizza em casa; precisamos dar o exemplo, comendo mais alimentos naturais, tomando café da manhã diariamente e realizando refeições em família com tranquilidade e num encontro harmonioso; se queremos que a criança se exercite mais, precisamos frequentar mais parques e áreas livres com ela; e inúmeros exemplos que podemos planejar conjuntamente com a família para chegar a um plano concreto e real, sem idealismos.

O tratamento da obesidade infantil não é rápido e envolve muita paciência e amor. Vemos que o diagnóstico da obesidade infantil muitas vezes ajuda a família como um todo a repensar seus hábitos e a adotar um estilo de vida mais saudável: pais, irmãos, avós também entram na dança e desfrutam de mais qualidade de vida. É uma oportunidade excelente para aprender a cuidar de nós mesmos e melhorar nossa auto-estima que valerá para a vida inteira!

1 mar Temas em Pediatria

Por que toda criança precisa brincar (muito)?


Por Gilka Girardello

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Brincando, elas
aprendem a escolher: uni-duni-tê.
aprendem a imaginar: esta poça d’água vai ser o mar.
aprendem a perseverar: caiu o castelo, vou fazer de novo.
aprendem a imitar: eu era o motorista – brrrrrrum.
aprendem a criar: dou um nó aqui, outro aqui e tá pronto o circo.
aprendem a descobrir: misturei amarelo e azul, olha o que deu.
aprendem a confiar em si: olha o que eu consegui fazer.
aprendem novos conhecimentos: 28, 29, 30, lá vou eu!
aprendem a fantasiar: daí a gente voava.
aprendem novas habilidades: vou fazer o cabelo da minha fada cacheado.
aprendem a partilhar: tira, bota, deixa ficar.
aprendem a inventar: essa tampinha de garrafa vai ser o pratinho deles.
aprendem a pensar logicamente: joga a bola pra ele!
aprendem a pensar narrativamente: vou te contar.
aprendem a interagir: posso brincar com vocês?
aprendem a cooperar: dá a mão que eu te ajudo.
aprendem a questionar: será que é assim mesmo?
aprendem a memorizar: vamos ver quem pula corda até cem?
aprendem a conhecer suas forças: deixa que eu defendo.
aprendem a conhecer seus limites: tô com medo.
aprendem a encorajar: vem que eu te seguro.
aprendem a fazer julgamentos: assim não vale.
aprendem a analisar: os grandes aqui, os pequenos ali.
aprendem a devanear: hã?
aprendem a compaixão: dá a mão que eu te puxo.
aprendem a fazer analogias: aquela nuvem não parece
um cavalo?
aprendem a organizar: ó que legal a minha fila de
carrinhos.
aprendem a fazer cultura: vamos brincar de inventar
piada?
aprendem a compartilhar: pega essa boneca que eu
pego aquela.
aprendem a perdoar: tudo bem, já passou.
aprendem a desbravar: vamos ver o que tem lá?
aprendem a construir: era uma vez uma cidade assim.
aprendem a destruir: vamos desmanchar pra fazer
outro.
aprendem a sentir: fiquei com o olho cheio d’água.
aprendem a rir: ra-ra-rá, lembra aquela hora?
aprendem a olhar: acho que aquela graminha ali é um
gafanhoto.
aprendem a ver: você tá triste?

Entre outras razões, porque brincar
é o principal jeito de
as crianças aprenderem.

E muito mais.
Mais que um jeito de aprender, brincar é o jeito de
as crianças serem. Não é uma coisa que possa
ser substituída, reembolsada amanhã, ou uma
preparação para o futuro. As crianças precisam
brincar hoje e todos os dias de sua infância. Todas
as crianças, no mundo inteiro, têm o direito
de aprender essas coisas e de ser plenamente
assim. Se não brincarem – muito – quando crianças,
não conseguirão aprender (nem ser) direito
depois. E todos os adultos do mundo precisam
aprender melhor o que as crianças, mesmo
sem perceber, têm pra nos ensinar.

Gilka Girardello
Professora no Programa
de Pós-Graduação em
Educação da UFSC
(Universidade Federal
de Santa Catarina) e
coordenadora do Núcleo
de Estudos Infância,
Comunicação e Arte

Toda quarta-feira, acontece na Casa Curumim a Oficina Desenvolver Brincando. Informe-se aqui!

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