3 nov Temas em Pediatria

Crianças Insuportáveis


Por Maíra Scombatti

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Outro dia, refletindo junto com uma outra mãe durante um atendimento, propus aprofundarmos o que ela estava sentindo quando me disse: “Eu não estou suportando o meu filho! Eu não sei mais o que fazer!”. No exercício da escuta empática, senti com ela o desespero que às vezes aparece na jornada da maternidade.

A maioria de nós, mães e pais, já sabe o que seria “certo” fazer. Sabemos racionalmente, mas é comum nos perdemos na irracional arte de criar filhos. Faz parte. E acho importante percebermos que, diversas vezes, as melhores teorias pedagógicas e psicológicas transformam-se em culpas imensas sobre os ombros parentais.

Com essa perspectiva, não me interessa dizer o que “sei”, o que li ou mesmo o que vivi. Não me agradam listas prontas do tipo “os 10 passos para lidar com uma criança insuportável”, a não ser que esses 10 passos sejam variações de olhares singulares, da pausa para respirar, da conexão com os sentimentos das crianças e dos pais.

Ainda junto com essa mãe, propus que pensássemos naquele momento: o que pode significar essa percepção de “uma criança insuportável”? Separando conceitos, dá para lembrar que insuportável é aquilo que é muito difícil suportar. Suportar é tanto o “não ceder, aguentar, resistir”; quanto o “ser capaz de segurar”, ou ainda, reflito eu: ser capaz de dar o suporte. Podemos pensar, então, que uma criança fica insuportável quando não a aguentamos, quando não conseguimos dar suporte àquele ser. “Ah, então, a culpa é dos pais?” Podem perguntar os experts em teorias simplistas. E eu proponho, assim como proponho para mim mesma depois de perceber um conflito com meus filhos: que tal parar de procurar culpados, ampliar a percepção do presente e abrir espaço para que soluções singulares surjam?

Então, vamos lá, diante da percepção “eu não consigo suportar meu filho”, minha proposta é: vamos trabalhar o acolhimento. Acolhimento das crianças, sim, mas em conjunto com o acolhimento dos adultos que cuidam das crianças. Acolher é oferecer refúgio, proteção ou conforto físico, abrigar(-se), amparar(-se). O acolhimento do sentir, do que faz sentido, para que possamos ampliar outros sentidos e verdadeiramente transformar relações.

Meu filho está insuportável? Antes de pensar em culpados, eu consigo perceber o que eu estou sentindo? É raiva? Impotência? Cansaço? Vontade de “esganar”? Posso me permitir sentir? Posso acolher meu sentimento antes de qualquer ação? Consigo tomar alguma distância? Posso pedir ajuda de outro adulto (familiar, profissional ou amigo)?

Algumas crianças exigem bastante suporte e conseguem bem facilmente tirar um adulto do seu eixo. É fácil criticar a educação de determinada família quando temos apenas filhos com temperamentos mais fáceis. E, sim, existem diferenças de temperamentos. Para quem teve mais de um filho, essa é uma percepção bem comum e a diferença também pode ser acolhida.

Outro ponto de acolhimento na percepção do insuportável: como mães e pais, vivemos um desafio imenso quando temos como proposta educar sem reproduzir os modelos violentos, físicos ou morais, a que fomos submetidos no passado. Essa é outra reflexão que tenho ampliado cada vez mais com as famílias que me procuram. Facilmente percebemos o que não queremos fazer: “não quero que meu filho obedeça porque tem medo de apanhar. Mas quero que ele me respeite e respeite os outros seres humanos. Sei que quero educá-lo com amorosidade, mas algumas vezes me percebo sem saber como construir esse respeito sem imposições violentas”. Essa fala resume um pouco o que sinto como mãe e o que escuto enquanto profissional de outras mães e pais. É difícil mesmo (e olha aí o acolhimento do que é difícil também!).

Com algumas famílias, vejo que ao acolhermos de verdade nossas limitações, podemos também aceitar o insuportável e abrir espaço para o novo. Para a solução que ainda não foi pensada e, assim, construímos uma paternidade ou maternidade criativa e presente.

Também sou adepta do bom humor sempre que possível: como não achar graça quando nos percebemos raivosos e pensando (ou gritando) coisas do tipo: Por que raios este ser não consegue me ouvir agora, com toda minha amorosidade??? Depois das cenas tragicômicas, dá pra perceber que a raiva estava ofuscando a amorosidade. E que ela estava ali para ser sentida, acolhida e é importante que possamos criar este acolhimento para o que nos desequilibra também.

Ao invés de julgar (aos outros ou a mim mesma): pais incompetentes, crianças insuportáveis, prefiro propor: pais acolhidos, crianças acolhidas. E assim seguimos suportando-nos com uma boa escuta, que acolha e suporte o que por vezes fica insuportável. Suportemo-nos, com amor, com raiva e com espaço para a criatividade que nos surpreende!

Maíra Scombatti

É psicopedagoga e atende crianças, adolescentes e famílias. Mãe do Theo e do Ian, coordena projetos sócio-educativos desde 1999. É autora do livro “Conversas de gente Grande – histórias infantis para adultos”(ComArte/USP). Atualmente realiza atendimentos na Casa Curumim e é colaboradora no Instituto de Psiquiatria da FMUSP, onde empreende oficinas teatrais para crianças e adolescentes em tratamento.

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