10 jun Aleitamento Materno

Relato de amamentação


Por Akiko, mãe da Sawa

Como prometido há um tempo, vou contar toda minha história de lactante com o objetivo de ajudar outras mães que passam por dificuldades na amamentação e que por falta de apoio de uma boa equipe (tanto técnica quanto familiar), acabaram desistindo de seus sonhos de continuar amamentando. Não tenho intenção de julgar ninguém que tenha desistido, é muuuuuito difícil em alguns casos e só com muito apoio para prosseguir.

Meu parto, apesar de cesárea, foi humanizado e Kenzo veio para meus braços assim que saiu da barriga. Como chorou muito, o pediatra (Douglas) foi deixando que ele se acalmasse para aí sim começar a mamar. Não precisou de nenhuma intervenção, ainda mais por que seu choro tão forte foi suficiente para limpar as  vias aéreas, foram 40 min “esguelando” deitado em meu peito. Quando começou a acalmar, o pediatra o posicionou para começar a mamar e foi ensinando para mim e Kazuo como ajuda-lo a abocanhar o seio corretamente. Não senti qualquer dor ou incomodo naquele momento. Ele mamou por 1h ainda na sala de parto.

Durante os 3 dias na maternidade a experiência da amamentação foi um pouco dolorida mas suportável. Kenzo sempre foi faminto e não passava de duas horas sem mamar.

E assim foi durante 2 meses, ele mamando com intervalos de no máximo 2h e com espaçamento maior só na madrugada, quando dormia umas 5h, o que dava um bom descanso. Fui totalmente adepta da livre demanda.

Não fiz restrições severas em minha alimentação, pois fui percebendo que ele não tinha cólica, não alterava o humor, nada, só evitava muito queijo e chocolate e continuava fazendo uma boa alimentação como na gravidez.

Kenzo teve estirões de crescimento consideráveis, ele esticava muito e engordava pouco o que fez com que ouvíssemos muitas vezes – ele não precisa de reforço? Seu leite é suficiente? etc, etc… –  mas fui firme e tive o aval do pediatra que ele não precisava de reforço, pois o desenvolvimento dele no conjunto estava ótimo e como eu e Kazuo fomos crianças magras, mesmo tendo tomado leite artificial, que costuma deixar crianças mais gordinhas, isso não ocorreu conosco.

No 3º mês, entretanto, ele esticou muito, muito, muito e não engordou, e fomos avaliar o que teria acontecido.

O Dr. Douglas decidiu chamar a fono da clínica, a Dra. Maria Teresa Sanches e ela observou que a língua dele era muito presa e que ele não estava mais fazendo a pega correta , e assim, não estava extraindo o leite posterior (a parte gorda do leite), pois meu peito enchia muito, ele extraia só o anterior (a parte que tem os anticorpos – o que o pessoal chama erroneamente de “leite fraco”). Na hora de extrair o posterior, que é mais grosso, ele começava a chorar. Eu não sabia, e mudava de peito, pois achava que já estava sem leite, uma vez que normalmente ele ficava mais de 30 minutos em cada um. Esse excesso de esforço também consumia calorias dele desnecessariamente.

A sugestão da fono foi que fizesse o corte do freio, mas era uma decisão que cabia a mim e Kazuo. Como eu tinha feito essa cirurgia quando criança e Kazuo também tem um pouco de língua presa, avaliamos que era melhor fazer logo para que ele voltasse a mamar direito pois não queríamos entrar com leite artificial desnecessariamente, principalmente por que eu tinha muito leite.

Tentamos primeiro fazer somente translactação (“trans”), extraia o leite anterior com bombinha elétrica e já deixava no posterior para ele mamar. Se ele quisesse mais, passava para ele o que tinha extraído pela “trans” enquanto ele mamava.

Na “trans” você coloca o leite em um copinho e com uma sonda coloca uma ponta dentro do copo e a outra presa no peito, ai a criança vai mamando o peito e sugando o “canudinho” ao mesmo tempo. Isso é muito usado inclusive para estimular a produção de leite em prematuros e já há relatos de sucesso até para mães adotivas, que começam a produzir leite através dessa técnica.

Na semana seguinte, voltamos ao pediatra e nada de ganho de peso.

Li bastante sobre a cirurgia e vi que seria bem simples e lá fomos nós para uma odontopediatra que faz a mesma. Realmente é tranquilo, em apenas 5 minutos a língua já esta solta e o bebê mamando. Kazuo ficou com ele na cadeira, ela passou um gel anestésico e levantou a língua dele, Realmente o freio era muito grosso, curto e prendia ate a ponta da língua. Com cauterizador, ela foi soltando e meu estômago foi colado nas costas, mas me mantive firme ali olhando, descobri o que era o tal do amor incondicional.

Após isto, ele passou por 2 sessões com a fono com a Dra. Teresa e ela foi ensinando como posicioná-lo corretamente durante a mamada e exercícios para a língua também se posicionar corretamente.

Antes, achava que era uma índia, que podia pendurá-lo no peito e fazer mil coisas enquanto ele mamava e vi que não era bem assim, que precisava dar atenção para aquele momento.

Em uma das sessões, fiquei tão estressada com tantas coisas que teria que fazer (exercício para a língua, posicionamento correto na hora de amamentar, extração de leite com bombinha, translactaçao, …!), que ao chegar em casa, meu leite quase secou, não saia nada e Kenzo estava ficando faminto. Liguei p/ o pediatra e optamos por entrar com o leite artificial através da “trans” e se meu leite não voltasse, tomaria um medicamento para voltar a produzir. Como muitos sabem, sou um pouco reticente quanto a tomar medicamento, mas se não tivesse jeito, fazer o que…logo eu que tinha tanto leite…

E ai, entrei com minhas “técnicas pessoais”. Tomei missoshiro com iriko (peixe seco), que já haviam dito que aumentava o leite e tive a ideia de oferecer o leite artificial nas oferendas de nosso altar de antepassados.

Foram apenas 2 doses de 60 ml de leite artificial através da “trans” e ao acordar no dia seguinte, estava com as mamas bem cheias!

Mesmo assim, por 1 semana, continuei passando 60 ml na ultima mamada e fui reduzindo ate retirar completamente.

Continuei retirando o leite anterior e passando por “trans” em 3 mamadas durante o dia por 2 semanas. Kenzo ganhou um pouco de peso, não muito, mas já estava mamando corretamente.

Com 4 meses e meio, decidimos apostar no reforço 2 vezes ao dia p/ ver se isso dava um incremento de peso para ele. Começamos com 2 de 60 ml, sempre através de “trans”. Ele continuava esticando bastante e ganhando peso mas não muito. E sempre ouvindo comentários – nossa, ele é comprido ne? – rsrsrs, para não dizerem – nossa, ele é magrinho ne? – rsrsrsrs

Continuamos com o reforço nesse esquema e assim foi até o 6º mês. Ele chegou a tomar 210 ml por dia de leite artificial, o que para uma criança nessa idade, que só toma leite artificial, é o equivalente a quantidade de apenas 1 mamada + ou –

Ah, quando ele estava com 4 meses, tb começou a pressão externa – não ta na hora dele comer comidinha? – e mantivemos firme nosso propósito de só amamentar até o 6 mês, o que é orientado por Meishu-Sama e é amplamente divulgado e incentivado pelo Ministério da Saúde e pela OMS.

1 semana antes dele completar 6 meses, aproveitamos a vinda de meu pai para o dia dos pais e começamos com os alimentos sólidos, tudo no seu tempo certo. Começamos com as frutas durante 1 semana e na semana seguinte, entramos com os vegetais, carnes, carboidratos, etc.

Mesmo comendo as papinhas, ele continua mamando intensamente e olha que ele come bem! Em 2 semanas de papinhas, ele ganhou 400g, não muito, mas para ele, bastante, o que o pediatra já havia previsto, que provavelmente ele ganharia um pouco mais de peso quando entrasse nas comidas, mas não muito, uma vez que a estrutura física dele é de uma criança “sarada” rsrsrsrs (pelo menos alguém em casa assim ahahahaha).

Agora sim entrei na fase do prazer da amamentação. Não que antes não fosse gratificante, mas no fundo ficava essa auto-cobrança de que eu precisava alimentá-lo, que ele dependia daquele leite p/ crescer saudável. Agora, deixo que ele mame quando quer, o quanto quer, da forma que quer, já que ele faz 4 refeições que são suficientes para o crescimento. E ele mama e como é bom curtir isso depois de toda essa saga!

Por isso, ficam aqui os pontos principais do que vivi:

- leite fraco – NÃO EXISTE! “pelamordedeus” ! existe criança que não extrai todo o leite, que foi o meu caso

- pouco leite – é possível, mas pode ser aumentado através do estimulo (quanto mais mama, mais produz) e pode ser incrementado com a translactação/ relactação. Há diversos relatos que podem ser encontrados no google sobre isso. Há medicamentos que também ajudam na produção, mas fica aqui minha sugestão do missoshiro com iriko, no meu caso deu muito certo.

- leite secar e voltar – totalmente possível, já vi relatos inclusive de mães que ficaram mais de 1 mês sem amamentar e conseguiram voltar com a “trans”

Mesmo assim, continuo dizendo, amamentação depende de todo um apoio, principalmente do parceiro, e de muita disposição, pois consome bastante a mãe e a produção de leite depende muito da condição emocional da mãe, pois é o cérebro que libera a ocitocina que vai produzir o leite.

Nem todas mulheres estão preparadas ou querem passar por isso e suas vontades devem ser respeitadas! Cada mãe sabe o que é melhor para ela e seu filho!

Deixe seu comentário