4 ago Aleitamento Materno

Carta de uma mãe angustiada


Por Rachel Francischi

Compartilho com vocês uma troca real de emails que tive recentemente com uma paciente minha muito angustiada com a amamentação do seu bebê.

foto-item-4bAcho que as informações ajudarão muitas outras mães e famílias, por isso pedi autorização para publicar suas cartas. Mãe de 3 filhos, o menor um bebê de apenas 3 meses, me procurou por primeira vez há mais de 10 anos, antes de ser mãe, e construímos uma relação de bastante confiança e uma alimentação muito saudável na sua vida e da família. Ela acaba de se mudar de país e enfrentou uma situação com a nova pediatra muito angustiante e perigosa para a amamentação. Minha resposta à sua carta é direta porque a conheço muito bem. Espero que você goste da leitura! Para mais informação, por favor entre em contato!

“Prezada Rachel, tudo bem? Felizmente a mudança ocorreu de forma bem tranquila para as crianças. Estou, contudo, com alguns problemas na amamentação. Meu bebê fará 4 meses na próxima semana e sigo amamentando exclusivamente no peito. Mas, a partir do 3º. mês sinto que meu peito não fica cheio como antes, não vaza mais e já tentei tirar na bombinha e não sai muito. De qualquer forma, o bebê não chora e mama normalmente ao longo do dia. Ele já dorme a noite toda e eu não amamento de noite pois ele está dormindo. Fui na pediatra nova aqui e ela me disse que ele está engordando pouco. Tem ganhado uma média de 15 gramas por dia, o que segundo a pediatra não é suficiente. Primeiro ela recomendou que eu desse um complemento de leite artificial (Fórmula), depois da mamada. Já tentei inúmeras vezes, mas ele não pega o bico da mamadeira, nem mesmo de chupeta. Depois ela me disse que eu deveria acordá-lo à noite para amamentar e manter a rotina a cada 3 a 4 horas. Tenho sérias dúvidas quanto a fazer como ela sugeriu, pois hoje ele dorme bem e não reclama de fome, não chora. Durante o dia ele não chora também, sinto que ele se satisfaz com a quantidade que recebe por isso não entendo o motivo pelo qual ele está ganhando pouco peso. Não gostaria que ele estivesse passando fome. Por favor, gostaria de sua orientação a respeito, e para saber se você acha que devo introduzir alimentos para ele: frutas, sucos?Estou bastante preocupada com esta questão da alimentação e confio muito na tua opinião.Só para conhecimento, ele nasceu com 3 kg e hoje pesa 6,010 kg. Um beijo, A.G.”

Essa foi a minha resposta:

“Prezada A. G., obrigada pela confiança! Claro, será um prazer ajudar, vamos lá:

1) Em primeiro lugar, o peso do seu bebê é perfeitamente normal para uma criança da idade dele. Ele está no percentil 15 de peso, ou seja, tende a ser uma criança magra, assim como você é. Percentil 15 siginifica que de cada 100 crianças da idade dele, 15 pesam igual ou menos do que ele. E é magro assim como o meu filho também, que sempre ficou perto do percentil 5. Até o percentil 3, estamos absolutamente dentro da normalidade.

2) Em segundo lugar, acho muito angustiante a pressão que sua pediatra colocou em vocês dois. Na minha opinião, essas decisões têm que ser tomadas em conjunto, mãe e médico, à luz dos fatos. Então vamos entender os fatos:

3) Antigamente se usavam tabelas para avaliar o ganho de peso baseadas em bebês norte-americanos alimentados essencialmente com fórmula, e que por isso são mais gordos e menos compridos que os bebês que mamam no peito (são as curvas de crescimento conhecidas como NCHS). O bebê amamentado no peito cresce mais e é mais magro, e isso é extremamente saudável, porque indica que está muito bem nutrido para crescer em tamanho e melhor protegido contra problemas que podem aparecer lá na frente, como obesidade e diabetes.

4) Por isso, durante mais de 10 anos, foram feitos estudos em vários países para saber quanto e como um bebê deve crescer. Hoje em dia felizmente já existem as tabelas da Organização Mundial da Saúde para bebês saudáveis (e que são de várias nacionalidades, inclusive o Brasil participou no estudo) e que vivem em ambientes saudáveis (livre de cigarro, mamam no peito, não estão doentes, etc). São essas tabelas que guiam nosso trabalho e permitem diagnosticar um bebê de baixo peso. São as curvas de crescimento conhecidas como OMS. Não sei se são essas as tabelas de ganho de peso que a sua pediatra está usando.

5) Um bebê que nasce com 3 kg e mama no peito exclusivamente ganha no primeiro mês de vida cerca de 46g/dia (do dia 14 ao dia 28), na média. No segundo mês de vida (dos 42 aos 60 dias de vida), ele ganha um terço menos, cerca de 34g/dia (lembrando que esses valores são uma média, porque mesmo que ele ganhasse apenas 24g/dia ele seria normal dentro das tabelas da OMS). Ou seja, a velocidade de ganho de peso vai diminuindo na medida em que o bebê vai crescendo! E diminui bastante!

6) Entre o terceiro e o quarto mês de vida, a média de ganho de peso (ou seja, o chamado Percentil 50 porque é para 50% dos bebês) para um bebê amamentado no peito é 20,6 g/dia, e no Percentil 25 é 15,8 g/dia. Um bebê no percentil do seu filho, que é o percentil 15, ganha cerca de 13 g/dia. Ou seja, o ganho de peso do seu bebê é totalmente normal e até um pouquinho acima do que seria esperado para um bebê igual a ele! Ele (e você) estão indo muito bem!

7) Você pode conhecer todas as tabelas de ganho de peso em http://www.who.int/childgrowth/en/

8) Não concordo que ele precise de fórmula agora. Pelo visto o seu filho concorda comigo porque está sabiamente rejeitando tanto a fórmula como a mamadeira (que também não é recomendada).

9) É normal após o terceiro mês de vida, a sucção do bebê ser mais vigorosa e ele esvaziar o peito mais rápido, dando a impressão de mamar menos por ficar bem menos tempo no peito. Também é normal a sua produção de leite se ajustar mais precisamente à sucção do bebê, e assim não vazar mais o seu leite. Isso pode às vezes dar a impressão que o bebê mama menos, mas não necessariamente isso está acontecendo.

10) Nessa idade, se ele dorme bem à noite e não reclama, concordo que acordá-lo para mamar pode ser um fator de estresse a mais para você. Eu respeitaria o ritmo dele.

11) Fruta ou suco têm menos calorias que o leite materno e devem ser introduzidos apenas após o sexto mês de vida. A fruta ou o suco não vai ajudar o ritmo de crescimento e podem atrapalhar!

12) Mas mesmo assim se você ainda acha que precisa fazer algo (é a chamada “síndrome de mãe”, precisamos fazer algo sempre, também sou assim), o que posso te sugerir seria: o pico da sua produção de leite é no final da madrugada e início da manhã (pico hormonal, cerca das 4-5h da manhã até umas 8-9h da manhã). Tente colocá-lo no peito nessas horas com mais frequência, sempre que der… E colocar no peito mais vezes ao dia, mesmo que você ache que não tem leite ou que ele já mamou (respeite a livre demanda, tanto para você como para ele). Você também pode estimular sua produção ordenhando um pouco (pode ser com a mão ou a bomba) por uns 10 minutinhos depois que ele mamar. Você pode guardar para depois oferecer num copinho (desses pequeninos de cachaça/tequila, de vidro, esterilizados, sem virar na boca dele para ele não engasgar), ou numa colherzinha. Ou descartar, porque estamos fazendo isso só para sua produção não diminuir com todo esse estresse e angústia.

Tudo bem? Me avisa se ficou claro, se você tem qualquer dúvida adicional, porque estou aqui para ajudar! Na Europa tem muito apoio à amamentação, conheço a La Leche League e sei que tem em vários países. Ali você vai encontrar muito apoio, informação e profissionais dedicados a apoiar e ajudar você na amamentação: http://www.llli.org/
Espero ter ajudado, me avisa como vão as coisas, Um beijo grande, Rachel”

E com muita alegria recebi essa resposta pouco tempo depois:

“Olá Rachel! Agradeço muitíssimo o teu e-mail. Confio muito na tua opinião e pode ter certeza que me sinto mais tranquila agora. Continuarei amamentando exclusivamente no peito até pelo menos os 6 meses. Resolvi escrever o e-mail a você pois tinha certeza que não havia qualquer problema de peso com o bebê. Sempre quis, e continuo querendo, amamentá-lo apenas no peito. Como você, acredito que esta seja a melhor coisa que posso fazer por ele. Toda a fundamentação técnica que você gentilmente me proporcionou, deixou-me extremamente segura para continuar o que tenho feito. Obrigada, Rachel! Tenho amamentado em livre demanda e sinto que ele está cada dia mais forte. Hoje fui pesar na pediatra e, para surpresa dela, ele engordou 220 gramas em 5 dias. Disse a ela que não havia mudado o que estava fazendo, que não dei a tal fórmula infantil, e que isto era resultado apenas do leite materno. Hoje ele está com 6.230. Fiquei muito feliz. Além disso, liguei para o meu pediatra no Brasil que me ajudou com a medicação que estou tomando. Ele me disse para mantê-la até o 5o mês. Acho que ela está servindo para bloquear o estresse que tenho passado por conta da mudança e por estar sozinha, visto que meu marido viaja com muita frequência. Também resolvi mudar de pediatra, pois precisamos ter confiança no médico e infelizmente não gostei de como ela conduziu esta questão da amamentação.Por aqui, felizmente as coisas estão indo bem. Já entro em todas as minhas roupas e retornei à atividade física, mas muito moderadamente, para não prejudicar a amamentação. Continuo seguindo a tua orientação nutricional e quando estiver no Brasil passo por aí para fazermos uma nova avaliação. Rachel, mais uma vez, muito obrigada! Teu e-mail além de muito didático e esclarecedor me tranquilizou bastante. Um grade beijo! A.G.”

Final feliz para mãe e bebê que agora podem seguir tranquilamente em aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida, conforme todas as recomendações nacionais e internacionais de saúde e nutrição infantil.

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