3 ago Aleitamento Materno

Introdução da Alimentação Complementar e a Amamentação


Por Rachel Francischi

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Hoje escrevi um artigo sobre a introdução da alimentação complementar e a amamentação. Os temas se relacionam porque justamente a volta ao trabalho da mamãe muitas vezes acompanha a introdução dos primeiros alimentos na vida do bebê.

Qual a idade ideal que os primeiros alimentos devem ser introduzidos da vida do bebê?

Os primeiros alimentos devem ser oferecidos aos seis meses de idade do bebê.

Mas se a mãe vai voltar antes disso ao trabalho, a introdução alimentar deve ser antes dos seis meses?

Não. A amamentação deve ser exclusiva, ou seja, apenas leite materno, até os seis meses de idade, para garantir um sistema imunológico mais forte, menor risco de infecções, alergias e perfeito crescimento e desenvolvimento do bebê.
Em raríssimos casos, orientamos a introdução de alimentos com 5 meses e meio de idade, por exemplo, mas isso tem que ser feito pelo pediatra ou nutricionista responsável que acompanha o bebê e sob circunstâncias especiais.

E como conseguir a amamentação exclusiva até os seis meses se a mãe vai voltar ao trabalho antes disso?

Infelizmente no nosso país ainda há muitas mães que precisam voltar ao trabalho antes dos seis meses de idade do bebê. Em muitos casos, conseguimos garantir a amamentação exclusiva até o sexto mês através da ordenha do leite materno e seu congelamento, para oferecimento ao bebê nos períodos de ausência da mãe. Nos primeiros dias de separação mãe-bebê, é importante que a mãe faça a ordenha do leite materno a cada 3 horas aproximadamente, e armazene de forma adequada (em potes de vidro lavados e previamente fervidos por 15 minutos, e depois da ordenha guardados em geladeira ou congelador) para que o bebê possa tomar o melhor alimento do mundo, o leite materno, enquanto a mãe estiver ausente.

No link a continuação estão todos os detalhes de como realizar essa ordenha e congelamento de forma adequada: http://www.redeblh.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=360

Por que alguns bebês passam a acordar mais vezes à noite depois que a mãe volta ao trabalho?

Nos momentos de reencontro mãe-bebê, é normal que o bebê passe mais tempo mamando e peça o peito com mais frequência, para compensar o período que passaram separados e também para matar as saudades!

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Se um bebê de 3, 4 ou 5 meses fica olhando a gente comer com muito interesse, isso significa que ele já está com vontade e precisando comer nossos alimentos?

Não, de jeito nenhum. O bebê fica curioso ao ver alguém levar um alimento ou um copo até a boca, pois é praticamente a única coisa que nós adultos levamos à boca na frente de um bebê, que leva tudo até a boca. Tudo mesmo, roupinha, brinquedo, dedo e até mesmo papel e objetos perigosos se não estivermos atentos! Logo, o bebê fica muito curioso ao ver você levando algo amarelo (uma banana por exemplo), vermelho (um pedaço de melancia por exemplo), algo prateado e pontudo (o garfo) até a sua boca, e fica muito interessado nisso, quer pegar e fazer igual, imitando. Mas ele não sabe o que é comer, mastigar ou engolir um alimento sólido e é imprudente oferecer alimentos sólidos para um bebê tão pequeno. Isso pode inclusive afetar a saúde do bebê, que deverá começar a comer no momento oportuno, após os seis meses de idade.

Por que muita gente, médicos inclusive, pedem para oferecer suco de laranja lima para o bebê, mesmo antes dos seis meses de idade?

Essa recomendação é muito antiga e não é mais usada. Ela existiu porque há muitos e muitos anos, quando ainda não se existia fórmulas infantis de leite artificial, os bebês que não podiam ser amamentados tinham que tomar leite de vaca. Mas não era o mesmo leite de vaca que as crianças maiores e os adultos podem tomar. A mãe tinha que diluir o leite de vaca com água filtrada ou fervida, porque o leite de vaca puro era muito forte e fazia mal para o bebê. Acontece que o leite de vaca não tem nada, nadinha de vitamina C. Ele tem cálcio, tem proteínas, gorduras, vitaminas do complexo B, mas vitamina C o leite de vaca não tem. E aí os bebês que tomavam leite de vaca tinham uma doença grave, chamada escorbuto, pela falta de vitamina C. Então, para o bebê que não mamava mais no peito, logo aos 2 meses de idade, os médicos já recomendavam oferecer de colherzinha um pouquinho de suco de laranja lima feito em casa, para garantir o consumo da vitamina C.

Mas é importante todo mundo saber que, hoje em dia, tanto os bebês que mamam no peito, como os bebês que tomam fórmula infantil, recebem toda a vitamina C que precisam nos seus leites, seja o leite materno ou o leite artificial. Não precisam e não devem tomar suco de laranja lima antes dos seis meses de idade.

Mas e depois dos seis meses de idade, podem começar pelo suco de laranja lima como o primeiro alimento?

Não recomendamos mais oferecer as frutas na forma de suco para bebês, nem para crianças (e nem para adultos). Os estudos mostraram que os sucos de frutas contém altíssima carga de açúcar da fruta (frutose), predispõem ao diabetes e não ensinam a criança a mastigar e a aprender o gosto, a textura, a forma das frutas naturais.

Além disso, grande parte das vitaminas e fibras das frutas são perdidas quando esprememos ou batemos a fruta, e a nutrição dentro de um suco é sempre pior do que a nutrição que temos dentro da fruta.

Então, se não é o suco, qual deve ser o primeiro alimento a ser oferecido para o bebê?

Aqui no Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que o primeiro alimento oferecido ao bebê seja uma fruta. A fruta deve ser de preferência da estação e madura, e sempre que possível devemos preferir alimentos orgânicos ou da agricultura familiar.

Em outros países, o primeiro alimento pode ser um legume cozidinho ou até mesmo um cereal cozido, tipo um mingauzinho. Tudo depende muito da cultura local e da alimentação da mãe, pois o leite materno já transmite para o bebê alguns sabores e características do que a mãe come normalmente e assim o bebê já está “acostumado” parcialmente com esses alimentos. Como somos um país tropical com uma imensa riqueza de frutas lindas e deliciosas, é esperado que as frutas sejam bem aceitas e toleradas pelo bebê brasileiro como seus primeiros alimentos.

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Mas o bebê precisa comer a fruta porque o leite materno já não é suficiente para a nutrição dele?

Não, não é bem assim. A fruta contém algumas vitaminas como vitamina C, contém fibras, potássio e carboidratos. Mas tudo isso já tem no leite materno. E a fruta não tem quase nada de proteínas, nem de gorduras, que é o que o bebê precisa em grande quantidade para crescer forte e saudável. E adivinha onde achamos as proteínas ideais e as gorduras tipo ômegas-3 de melhor qualidade no mundo inteiro? Isso mesmo, no leite materno!

Sinceramente, o quê o bebê precisa é de leite materno. Mamar exclusivamente até os seis meses de vida e depois até pelo menos os dois anos de idade. Tudo o que ele precisa de nutrientes está no leite materno. Mas, após os seis meses de idade, a necessidade de alguns nutrientes como ferro e zinco é muito alta, e o leite materno não contém tanto ferro e zinco assim. Então, precisamos introduzir os alimentos para que o bebê possa complementar o ferro e o zinco, que estão principalmente nos feijões, nas carnes vermelhas e nos vegetais de folhas verde-escuras. Ou suplementar esses nutrientes caso seja necessário. O pediatra ou o nutricionista que acompanha o bebê saberá decidir se é esse o caso.

Pelo o que entendi, se o bebê comer muita fruta e pular as mamadas várias vezes ele pode não crescer direito?

Isso mesmo, muita fruta e pouco leite materno para um bebê de seis meses não é legal e pode desnutri-lo.

No início da alimentação complementar, não recomendamos que o bebê pule as mamadas, comendo apenas a frutinha no meio da manhã ou da tarde. Além de prejudicar a produção de leite materno se a mãe começar a pular mamadas e não ordenhar, a nutrição do bebê também será prejudicada. O ideal no início da alimentação complementar é oferecer ambos, fruta e leite materno, ao bebê. E aos poucos, bem aos pouquinhos ao longo dos primeiros meses da introdução dos alimentos, podemos ir espaçando as mamadas e substituindo-as pelas refeições com os alimentos.

Não vemos a introdução alimentar do bebê como o início de um desmame, pelo contrário! Vemos sim como uma nova etapa que introduzimos na vida do bebê, que se soma à amamentação. Por isso chamamos de alimentação complementar, porque complementa, e não substitui, o leite materno.

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Por que alguns bebês são mais difíceis de comer que outros?

Alguns bebês são mais interessados e curiosos com os alimentos. Logo nas primeiras vezes já abrem a boquinha, querem segurar e amassar as frutas, querem comer sozinhos e parecem se divertir (e se sujar!) muito com esse momento. Mas isso depende muito da personalidade de cada bebê… E a maioria dos bebês não é assim… Muitos bebês não são ainda tão interessados nos alimentos, não entendem muito bem o que é aquilo vindo na direção da boquinha deles, não querem pegar algo frio e esquisito na mãozinha… Não sabem e nem entendem que terão que abrir a boca e engolir algo muito diferente do alimento líquido, morno, perfeito que comem deitadinhos no colo aconchegante da mamãe, ouvindo o coração da mãe bater durante a amamentação.

A transição alimentar é uma fase intensa, o bebê terá que passar a comer sentado em vez de deitado, numa cadeira dura e fria em vez do colo quente e confortável, um alimento com textura em vez de um líquido perfeito e homogêneo que é o leite materno. Temos que ter muita paciência e compreensão para ajudar o bebê a entender essa mudança. Quanto mais divertido, lúdico e alegre for o momento de oferecer os alimentos para o bebê, melhor para o desenvolvimento infantil e a construção de uma boa e saudável relação com o alimento. Isso significa jamais, jamais obrigar ou forçar um bebê ou uma criança a comer, por nenhum método e sob nenhuma circunstância.

Se você gostou e deseja saber mais, visite http://www.rachelnutricionista.com.br/nutricao-infantil/ , participe de uma de nossas deliciosas “Oficina de Papinhas, Copinhos e Nutrição Infantil” ou agende uma Consulta Nutricional Infantil comigo. Será um prazer acompanhá-los nessa maravilhosa descoberta do prazer da alimentação saudável. Obrigada!

Rachel Francischi
Nutricionista (FSP/USP)
Mestre em Biologia Funcional e Molecular na área de Bioquímica (UNICAMP) • Master Practioner em Programação Neurolinguística (PNL) • Nutricionista para América Latina e Caribe do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (ONU) (2007-2012)
e-mail:contato@rachelnutricionista.com.br 
site:www.rachelnutricionista.com.br
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