6 ago Aleitamento Materno

Nutrição e amamentação


Por Rachel Francischi

A nutrição nos primeiros 1000 dias de vida

images-1Existe um período crítico no qual os investimentos para assegurar uma nutrição adequada são decisivos na vida de todo indivíduo. Os 1000 dias que compreendem desde o início da gestação (nove meses) até o segundo aniversário na vida de uma criança é o período conhecido como janela de oportunidades, por ser uma oportunidade única para assegurar um futuro mais saudável e próspero, tanto no nível individual como coletivo (WHO, 2013; Hoddinott et al, 2012; The World Bank et al, 2010). A nutrição adequada nestes 1000 dias representa um enorme impacto na capacidade de esta criança crescer, aprender, se desenvolver e ter uma vida próspera. Também tem um efeito profundo na saúde no longo prazo, na estabilidade social e no desenvolvimento de comunidades e nações inteiras (The World Bank et al, 2010).

Damos ênfase ao aleitamento materno como garantia de excelência na nutrição durante os dois primeiros anos de vida. O aleitamento materno é a primeira prática alimentar dos indivíduos e se relaciona com a saúde ao longo de toda a vida. É a mais sábia estratégia natural de vínculo, afeto, proteção e nutrição para a criança. Amamentar é muito mais do que nutrir. É um processo que permite a profunda relação entre mãe e filho, com repercussões no estado nutricional da criança, em sua habilidade de se defender de infecções, em sua fisiologia e no seu desenvolvimento cognitivo e emocional, além de ter implicações na saúde física e psíquica da mãe também (Brasil, 2009).

O aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida e continuado até pelo menos os dois anos de idade está relacionado com a diminuição da mortalidade infantil, a redução na incidência de doenças infecciosas na infância, a diminuição nas prevalências de obesidade e doenças crônicas (hipertensão, diabetes, doença cardiovascular, etc) tanto na infância como na vida adulta, e até mesmo com um maior coeficiente intelectual (OPS, UNICEF, PMA, 2009; Gonzalez, 2009; León-Cava et al, 2002; Uauy et al, 2008; WHO 2013; Bhutta et al 2013). Além desses extensos benefícios, para a mãe que amamenta o aleitamento materno representa uma prevenção ao câncer de mama e ovário, além de diminuir o risco de fraturas por osteoporoses e a perda de ferro (Gonzalez, 2009; León-Cava et al, 2002).

No Brasil, 95% das crianças brasileiras foram alguma vez amamentadas, mas esse número cai drasticamente ao longo dos dois primeiros anos de vida. Segundo dados de pesquisas recentes, a mediana de aleitamento materno exclusivo no Brasil é de apenas 54 dias, e mediana do aleitamento materno total, que deveria ser de 24 meses, é pouco maior que onze meses (Brasil, 2011). Atualmente, a prevalência do aleitamento materno exclusivo em menores de seis meses é de 41% (Brasil, 2011), valor que ainda precisa ser incrementado para assegurar uma ótima nutrição infantil.

A transição do aleitamento materno para os alimentos consumidos pela família é o período denominado como alimentação complementar. É um processo que se inicia aos seis meses de idade e dura até os 24 meses. O aconselhamento para uma adequada alimentação complementar também é considerado uma das ações essenciais em nutrição para melhorar a saúde e o desenvolvimento infantil (WHO 2013). Este é um momento delicado no qual a introdução de alimentos deve ser feita em tempo oportuno e em quantidade e qualidade adequadas a cada fase do crescimento e desenvolvimento infantil. Durante a alimentação complementar são adquiridos e formados os primeiros hábitos alimentares, e a correta alimentação tem o papel de promoção à saúde e hábitos saudáveis, além de proteger a criança de deficiências de micronutrientes e de doenças crônicas na idade adulta (Brasil, 2011).

Vantagens da amamentação exclusiva até o sexto mês e continuada até

pelo menos os dois anos de idade:

Evita mortes infantis

Evita diarreia

Evita infecção respiratória

Diminui o risco de alergias

Diminui o risco de hipertensão, colesterol alto e diabetes

Reduz a chance de obesidade

Melhor nutrição

Efeito positivo na inteligência

Melhor desenvolvimento da cavidade bucal (fundamental para o alinhamento correto dos dentes e uma boa oclusão dentária)

Proteção contra câncer de mama

Diminui riscos de fraturas por osteoporose

Diminui a perda de ferro e evita nova gravidez precoce

Menores custos financeiros

Promoção do vínculo afetivo entre mãe e filho.

Melhor qualidade de vida

Fonte: Elaboração própria a partir de: Gonzalez, 2009; Brasil, 2009; León-Cava, 2002; PAHO, 2009; Bhutta et al, 2013; WHO, 2013.

Alguns cuidados nutricionais importantes durante a amamentação

Para a produção do leite materno, a mulher precisa consumir mais calorias, proteínas e líquidos além do habitual. Por isso, durante o período de amamentação, a mulher sente mais apetite e mais sede. Pode também acontecer algumas mudanças nas preferências alimentares da mãe lactante, mudanças que muitas vezes são compatíveis com as novas necessidades nutricionais.

Acredita-se que um consumo extra de 500 a 600 calorias por dia seja o suficiente para atender a nova demanda nutricional. Esse é um grande incremento nas necessidades energéticas, pois equivale ao gasto calórico de correr durante cerca de uma hora, todos os dias, sete dias por semana.

Além do consumo energético adicional via alimentação, a mãe lactente também contará com as reservas de gordura acumuladas durante a gestação para garantir calorias suficientes para a produção do leite materno. A maioria das mulheres armazena durante a gravidez cerca de 2 a 4 kg de gordura, que geralmente são queimados ao longo do período que dura amamentação.

Algumas recomendações para uma alimentação adequada para a amamentação incluem:

• Consumir uma dieta variada, incluindo pães e cereais integrais, frutas, legumes, verduras, leite e derivados do leite, carnes e alimentos de origem animal;

• Consumir três ou mais porções de leite ou derivados por dia;

• Consumir frutas e vegetais ricos em vitamina A, geralmente aqueles de cor amarelo e laranja;

• Certificar-se de que a sede está sendo saciada. Há que ter cautela com a crença popular que diz que a mulher que amamenta deve consumir abundantemente líquidos (em excesso), pois esse excesso não aumenta a produção de leite, podendo até diminuí-la;

• Evitar dietas (e medicamentos também) que promovam rápida perda de peso. O ideal é um emagrecimento de cerca de meio kilograma (0,5 kg) por semana, no máximo;

• Consumir com moderação café e outros produtos cafeinados (chocolates, chás mate e preto, por exemplo).

Crianças amamentadas por mães vegetarianas têm risco de sofrer hipovitaminose B. A ingestão de suplementos de vitamina B (especialmente vitamina B12) e de proteínas nesses casos também precisa ser avaliada e algumas vezes recomendada.

Muitas vezes a dieta materna pode estar carente de um ou mais nutrientes, especialmente de vitaminas e minerais. Depois de uma avaliação nutricional, a suplementação específica com micronutrientes de alta biodisponibilidade pode ser indicada.

Como regra geral, as mulheres que amamentam não necessitam evitar determinados alimentos. Entretanto, se elas perceberem algum efeito na criança de algum componente de sua dieta, pode-se indicar a prova terapêutica: retirar o alimento da dieta por algum tempo e reintroduzi-lo, observando atentamente a reação da criança. Caso os sinais e/ou sintomas da criança melhorem substancialmente com a retirada do alimento e piorem com a sua reintrodução, ele deve ser evitado.

Geralmente as substancias alergênicas dos alimentos consumidos pela mãe que amamenta podem aparecer no leite materno por até cerca de 10 dias depois da ingestão. Por isso, a prova terapêutica costuma ser complexa. Ressalta-se que o leite de vaca é um dos principais alimentos implicados no desenvolvimento de alergias alimentares. Isso vale tanto na dieta da mãe lactente como do bebê que recebe leites artificiais. Outros alimentos alergênicos incluem a soja, o ovo, as oleaginosas (castanhas, amêndoas, avelãs, nozes, amendoim, etc), os peixes e crustáceos e o trigo. Não é recomendável excluir nenhum grupo alimentar da dieta materna sem antes consultar um profissional, pelo risco de desenvolvimento de deficiências nutricionais. Por exemplo, a lactente que eliminou o consumo de leite e derivados do leite deve receber suplementação diária com cálcio e vitamina D em quantidades específicas para ela.

Vale a pena enfatizar que no segundo ano de vida o leite materno continua sendo importante fonte de nutrientes para a criança. Estima-se que dois copos (500ml) de leite materno no segundo ano de vida fornecem 95% das necessidades de vitamina C, 45% das de vitamina A, 38% das de proteína e 31% do total de energia. Além disso, o leite materno continua protegendo contra doenças infecciosas.

Por fim, lembramos que o trabalho de promoção e apoio ao aleitamento materno requer um olhar atento e abrangente, sempre levando em consideração os aspectos emocionais, a cultura familiar, a rede social de apoio à mulher, entre outros. Esse olhar necessariamente deve reconhecer a mulher como protagonista do seu processo de amamentar, valorizando-a, escutando-a e empoderando-a.

A livre demanda do ponto de vista nutricional

O metabolismo de um adulto sabe enfrentar períodos de jejuns sem grandes prejuízos para o corpo humano. Assim, a maioria dos adultos pode aguardar os momentos oportunos para receber alimentos, com uma fina autoregulação entre os períodos de jejum e de alimentação. Diversos hormônios são liberados na corrente sanguínea, no momento exato e na quantidade certa para permitir as diversas reações químicas de adaptação do corpo para a presença ou não do alimento.

Mas um bebê não pode esperar. Sua sensação de fome é muito intensa! Além disso, sua comida (o leite materno) muda substancialmente ao longo do tempo e se sofre atrasos para ser “servida”. Isso porque o leite materno não é um alimento morto, é um alimento vivo, em constante evolução a cada mamada!

A quantidade de gordura muda muito durante uma mamada e entre as mamadas. Por exemplo, o leite do inicio de uma mamada tem pouco gordura, e o leite ao final da mamada chega ter cinco vezes mais gordura. A gordura é fundamental para o adequado crescimento do bebê.

De forma simplificada, podemos dizer que a composição do leite materna (especialmente a quantidade média de gordura) numa determinada mamada depende de quatro fatores: tempo entre as mamadas; quantidade de gordura no final da mamada anterior; volume mamado na mamada anterior; e volume consumido na mamada atual. É assim que a natureza regula a composição do leite materno. A quantidade de gordura diminui com o tempo transcorrido desde a mamada anterior (quanto mais tempo, menos gordura). E a quantidade de gordura aumenta com a concentração de gordura no final da mamada anterior, com o volume ingerido na mamada anterior e o volume ingerido na mamada atual.

Um bebê que mama 50 mL de cada peito não é o mesmo que aquele bebê que toma 100 mL de um só peito. E a dieta do bebê que toma 100 mL a cada duas horas é completamente diferente daquele que toma 200 mL a cada quatro horas.

Por exemplo, um bebê que mama de dois peitos raramente acaba com o leite mamado no segundo peito, de modo ele mama cerca de dois terços de leite menos gorduroso (leite mais diluída) e um terço de leite concentrado. Por outro lado, o bebê que mama de um só peito, toma cerca de metade de leite diluído e metade de leite concentrado. Se o bebê mama leite com menos gordura (e por tanto com menos calorias), ele pode aceitar um volume maior e por tanto mais água e proteínas.

O leite materno é um alimento versátil.  Para o bebê, não é nada monótono se alimentar apenas dele. Isso porque o bebê não come sempre o mesmo alimento quando está recebendo o aleitamento materno sob livre demanda. Podemos dizer que ele tem a sua disposição um cardápio variado para escolher, desde o equivalente a uma sopa levinha até sobremesas bem cremosas!

O bebê então “escolhe” seu cardápio dando instruções ao peito através de três chaves:

1) A quantidade de leite que mama a cada mamada (quer dizer, mamando mais ou menos tempo e com maior ou menor intensidade).

2) O tempo entre uma mamada e a próxima mamada.

3) Tomar só de um peito ou de ambos peitos.

O que um bebê é capaz de fazer com o leite materno é autêntica engenharia para obter exatamente a nutrição que necessita diariamente. O controle que o bebê tem sobre sua própria dieta é total e perfeito quando pode variar estas três chaves. Impor um regime de horários (dar de mamar a cada 3 horas por exemplo) é impedir a sábia natureza de agir e regular a exata nutrição que o bebê precisa. Nisso é que consiste o aleitamento materno sob livre demanda: que o bebê decida quando vai mamar, por quanto tempo vai mamar e se vai mamar de um peito apenas ou dos dois peitos.

Referências bibliográficas:

Bhutta Z, Ahmed T, Black R, Cousen S, Dewey K, Giugliani E et al. What works? Interventions for maternal and child undernutrition and survival. Maternal and Child Undernutrition Series. The Lancet 2008; 371: 417-40.

Bhutta ZA, Das JK, Rizvi A, Gaffey MF, Walker N, Horton S, Webb P, Lartey A, Black RE; The Lancet Nutrition Interventions Review Group, and the Maternal and Child Nutrition Study Group. Evidence-based interventions for improvement of maternal and child nutrition: what can be done and at what cost? Lancet. 2013 Jun 6. doi:pii: S0140-6736(13)60996-4. 10.1016/S0140-6736(13)60996-4.

Black R, Allen L, Bhutta Z, Caulf L, Onis M, Ezatti M et al. Maternal and child undernutrition: global and regional exposures and health consequences. Maternal and Child Undernutrition Series. The Lancet 2008; 371: 243-60.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da criança: nutrição infantil: aleitamento materno e alimentação complementar / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília : Editora do Ministério da Saúde, 2009.

González C. Un regalo para toda la vida: guía de lactancia materna. Madrid, Ed Temas de Hoy, 2009.

González C. Mi niño no me come. Madrid, Ed Temas de Hoy, 2011.

León-Cava N, Lutter C, Ross J, Martin L. Cuantificación de los beneficios de la lactancia materna: reseña de la evidencia. Washington, Organización Panamericana de la Salud, 2002.

PAHO, WHO. 49th Directing Council, 61st Session Of The Regional Committee Panamerican Health Organization and World Health Organizacion. Washington DC,  28 Sept – 02 Oct, 2009. Executive Summary: Pan American Alliance for Nutrition and Development for the Achievement of the Millennium Development Goals. Washington DC, 2009.

WHO. Essential Nutrition Actions: improving maternal, newborn, infant and young child health and nutrition. Geneva, 2013.

 (artigo escrito para a 22ª Semana Mundial de Aleitamento Materno – SMAM2013)

 

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