26 fev Parto Temas em Pediatria

O papel do pediatra no nascimento humanizado


Por Douglas N. Gomes*

O trabalho do pediatra é essencial no momento do bem nascer. Sua atuação diferenciada contribui para garantir a preservação do que a natureza reserva para mães e bebês durante o nascimento. Cabe a esse profissional evitar as interferências causadas por procedimentos desnecessários ou inoportunos no nascimento.

Entre as suas atribuições primordiais está a de garantir um contato íntimo, pele a pele, da mãe com o bebê após o nascimento. Além de satisfazer a vontade da maioria das mães de ver e tocar seu bebê logo após o parto, esse contato também é a melhor forma de proporcionar o equilíbrio da temperatura e dos sinais vitais do bebê, fato que já foi provado por pesquisas científicas desde 1995.

Hoje sabe-se que quando é garantido um ambiente aquecido e com pouca luz grande parte dos recém-nascidos olha demoradamente os olhos de sua mãe, chora menos e se adapta com mais tranquilidade ao novo ambiente menos quente, mais barulhento e com maior força de gravidade do que o intrauterino.

Está cientificamente comprovado que os bebês que mamam na primeira hora de vida têm maior possibilidade de estender seu período de amamentação exclusiva, chegando com mais facilidade ao ideal recomendado pela Organização Mundial da Saúde de alimentar os bebês exclusivamente ao seio até os seis meses de vida e manter a amamentação, junto com alimentos complementares, até dois anos de vida ou mais.

A essência da assistência humanizada ao parto e ao recém-nascido está em bem atender as necessidades de saúde das famílias nesse ciclo tão especial da vida como é o parto e o nascimento. E, ao mesmo tempo, não ceder ao interesse do sistema médico de oferecer recursos tecnológicos muitas vezes desnecessários ou inoportunos para a investigação de doenças e problemas de saúde. Na base do cuidado humanizado está o entendimento da saúde como o bem estar e a felicidade das pessoas e não apenas a ausência de doenças e patologias.

Se por um lado é certo que evitar, identificar e tratar doenças ou problemas do corpo, da mente e da vida social das famílias fazem parte do papel do médico pediatra, por outro ainda são poucos os profissionais que conseguem identificar as reais necessidades de saúde das famílias durante o nascimento e a infância.

Para isso, o pediatra precisa ter uma escuta qualificada para questões não médicas e por vezes muito determinantes da saúde dos bebês e das crianças como: a história de vida do casal e de suas famílias, as qualificações individuais dos pais para lidar com mudanças ou com situações diversas da vida, a resiliência de cada um, o entendimento que as famílias têm do processo de nascimento e parto, o entendimento individual que cada um tem do processo saúde-doença, a rede de apoio familiar do casal e até os conflitos na relação do casal, que não raro se refletem em problemas para a criança, como por exemplo nas dificuldades com a amamentação.

Faz parte do atendimento humanizado ao recém-nascido não realizar movimentos intempestivos, que causam choro ou desconforto, em suas primeiras horas de vida. O bebê deve ser manuseado com suavidade e leveza. Algumas ações que refletem essa manipulação delicada e suave são:

  • movimentar lenta e delicadamente o bebê após sua saída do canal de parto para conduzi-lo ao colo da mãe;
  • enxugar delicadamente com panos preaquecidos a parte de trás do corpo do bebê, que não está em contato direto com a pele da mãe;
  • enxugar apenas tocando, sem esfregar a pele do bebê;
  • trocar os panos preaquecidos que envolvem o bebê, a qualquer momento, se ficarem úmidos ou encharcados de líquidos;
  • dar atenção especial ao rosto do bebê, limpando suavemente eventuais resíduos de líquido ou sangue;
  • encontrar uma posição mais confortável para o bebê sobre o ventre ou o peito da mãe caso ele chore ou mostre algum desconforto;
  • não deixar em nenhum momento o bebê desenrolado ou com partes do corpo descobertas ou expostas ao frio;
  • se o bebê nascer na água, aquecê-lo com a própria água morna da banheira, derramando-a suavemente sobre as costas dele;
  • aguardar o bebê dar sinais de que quer mamar para posicioná-lo próximo à aréola do seio materno, dando a ele a oportunidade de se movimentar para buscar e abocanhar o peito;
  • não interromper o contato pele a pele do bebê com a mãe por motivos banais como a necessidade de mudança de posição da mulher para os procedimentos finais do parto;
  • realizar os procedimentos de rotina, como pesar e medir o bebê, apenas depois que ele solte o seio ao terminar de mamar ou, se não tiver mamado, após ele dar sinais que descansar ou dormir sempre após a primeira hora de vida;
  • pesar o bebê enrolado em panos preaquecidos para não expô-lo ao frio;
  • fazer o primeiro exame pediátrico com o bebê em ambiente aquecido, com enrolamento parcial, em posição organizada (com os membros agrupados) e com contenção facilitada pelo pai ou familiar;
  • dar o primeiro banho do bebê no quarto, enrolado em panos e em posição vertical (dentro de balde) para que ele relaxe e até durma, se quiser;
  • oferecer ao casal a possibilidade segura de aplicar vacinas e realizar procedimentos dolorosos no bebê somente após estar acertada a amamentação;
  • ouvir os pais e explicar detalhadamente todos os procedimentos e exames necessários para o bebê e sugerir soluções práticas para sua realização;
  • dar suporte e resolver todos os problemas relacionados ao manejo da amamentação exclusiva;
  • assertividade para proteger o bebê de rotinas hospitalares desnecessárias que atrapalhem um nascimento natural e impossibilitem a amamentação precoce;
  • acolher as demandas e vontades do casal quanto a todos os cuidados e procedimentos que serão dispensados ao bebê durante sua estada no hospital;
  • fazer visitas médicas complementares (hospitalares ou em casa, se necessário), se necessário, para garantir os cuidados adequados e individualizados para cada bebê, de acordo com suas necessidades e os problemas diagnosticados.

Alguns diferenciais do pediatra humanizado:

  • disponibilidade para estar presente no momento do parto;
  • abertura para ouvir e acolher os questionamentos dos pais com relação à própria conduta, aos procedimentos do hospital ou do restante da equipe de saúde;
  • disponibilidade para atender chamados durante o período pós-parto;
  • oferecer alternativas domiciliares de tratamento após a alta para problemas como dificuldades na amamentação, banho de luz para tratamento de icterícia.
  • disponibilidade para responder a telefonemas e/ou mensagens de texto dos pais, sem demora, seja de bebês com poucos dias vida ou de crianças maiores;
  • utilizar os diversos meios de comunicação disponíveis como e-mail, programas de troca de mensagens instantâneas e torpedos para agilizar a comunicação com os pais;
  • disponibilidade para conversar com pediatras de prontos-socorros onde seus pacientes porventura estejam sendo atendidos em casos de urgência para avaliar em conjunto as condutas médicas que estão sendo tomadas;
  • disponibilidade para visitar os bebês que precisarem de internação com o objetivo de acompanhar as condutas propostas e sugerir mudanças, além de esclarecer as dúvidas da família e dar suporte emocional aos pais.

 * Douglas N. Gomes é médico neonatologista e pediatra da Casa Curumim

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