13 jan Aleitamento Materno

Relato de Amamentação


Por Carla, mãe de Matheus

A minha história começa na gravidez. Não me lembro ao certo quando, mas na minha memória a barriga ainda não era tão grande e a obstetra me dizia que aquelas marquinhas brancas na minha mama eram leite. Fiquei muito feliz com a descoberta e confesso que nunca me passou pela cabeça que “existiam” problemas de amamentação, simplesmente não considerava essa questão.

O Matheus resolveu nasceu com 36 semanas e 1 dia, tive contrações desde a madrugada e às 19h04 chorava emocionada e muito realizada ao ouvir seu primeiro choro… Choros da vida!

Como nasceu de cesárea (por questões médicas justificadas e importantes, e sem violência obstétrica!) e como foi considerado prematuro, voltou para o quarto algumas horas depois do nascimento e rapidamente ele pegou o peito, sugou com força e vontade! “Com uma pega muito boa”, diziam as auxiliares de enfermagem. Assim, mais uma vez fiquei tranquila: “meu filho está recebendo meu leite”, pensei e senti.

No dia seguinte percebi que Matheus chegou ao quarto, após o banho no berçário, com marquinhas em volta da boca, parecendo que haviam colocado um copo, questionei, e as auxiliares disseram que não era nada. Somente quando o pediatra foi ao quarto, explicou que “como Matheus é prematuro temos que controlar sua glicemia e foi preciso dar complemento”. Ouvi, calei, aceitei… e somente hoje, passados 1 ano e 3 meses, consigo ter a clareza que nesse exato instante o MAS veio me assombrar… “mas meu leite não é suficiente?”.

Assim, o que deveria ser um encontro se tornou uma questão de técnica e quantidade: “a pega deve ser assim”, “observe atenta”, “coloque nessa posição”, “vamos medir a glicemia”, “ele ficou muito tempo no peito? Pouco tempo? Sugou?”… Após as mamadas, em algumas ocasiões, ainda havia uma espetada em seu pezinho para saber se a glicemia estava dentro da referência, algumas vezes estava super boa, e eu ficava muito feliz e realizada, MAS algumas vezes, depois de horas amamentando, a glicemia vinha baixa e era preciso do copinho com complemento… Nem preciso dizer o quanto isso foi me arrasando….

Outro fantasma veio assombrar… Matheus também teve icterícia e cogitava-se que ele precisaria ficar mais um dia na maternidade e eu teria alta. Ficamos em desespero! E minha obstetra foi super acolhedora e logo disse que não me daria alta sem meu filho… um pouco de acalento voltou ao coração.

A icterícia diminuiu e tivemos alta. MAS Matheus chegou em casa com a orientação que eu deveria dar complemento no copinho e que logo providenciasse consulta médica para verificar seu peso.

Nós não estávamos preparados para isso, eu não estava realmente preparada para esse tipo de questão e fui pega de surpresa… não questionei, procurei seguir todas as orientações, pois como “mãe de primeira viagem” foi o melhor que pude fazer por Matheus naquele momento. Não conseguia ouvir nenhum “instinto”, não havia tido espaço para deixar fluir e abrochar meu maternar… e assim, o início da amamentação foi atravessada pela questão quantitativa.

Consegui uma consulta com um pediatra logo no dia seguinte, e em uma consulta de 10 minutos, que me causou estranheza, disse somente que o peso estava estável e não havia icterícia e que voltássemos em 15 dias. Como eu ouvi o que queria, não procurei outro pediatra prontamente…

Nesses primeiros dias, o leite “desceu”, Matheus mamava e adormecia mamando, com gotinhas de leite na boca… MAS passado alguns dias começou a chorar no final do dia…. Com ajuda do Google eu diagnostiquei que fosse cólica, ignorando que ele não tinha nem 21 dias, e no telefone com o “suposto pediatra”, este me receitou um remédio antigases. Não resolvia…. e durante o dia Matheus começou a dormir pouco, continuava magrinho, eu não descansava… Continuei acreditando que era cólica, conversei com amigas que já tinham tido filhos, peguei dicas… Passei a restringir minha alimentação de qualquer alimento que pudesse produzir gases…. resultado, passei a comer pouco e com pouquíssima variedade. O “horário da cólica” começou a ficar muito extenso e de noite Matheus ficava 3 horas em meu peito, exausta e sem saber o que fazermos, passamos a achar que ele havia mamado demais e estava com congestão.

Não sei quanto tempo isso durou, sei que pareceu uma eternidade. Procuramos outra pediatra, que conversou calmamente conosco e disse, “o Matheus está com fome”… Que golpe avassalador, que culpa senti….

Receitou plasil para mim e orientou a qualquer choro dele, dar o peito. Ficamos assim, uma semana, mas o pequeno ainda não ganhava peso e continuava chorando… e eu exausta… Assim, mais uma vez a orientação foi complementar a mamada. Uma alegria me invadiu ao ver meu filho sorrir novamente e dormir tranquilo novamente. Entretanto, escondia lá no fundo uma tristeza por saber que “eu não tinha leite o suficiente”… Não dizia a todo momento (acho que não, pelo menos), mas passava o dia pesquisando e tentando fazer coisas para aumentar minha produção de leite… Tomei chá da mamãe, fiz acupuntura, passei a me alimentar melhor e tentava acreditar em mim… MAS a cada mamada ficava assombrada com “a quantidade que produzi de leite foi suficiente?”, e fui ficando deprimida, cabisbaixa…

Passadas algumas semanas, a tranquilidade foi acabando, porque Matheus tomava a mamadeira muito rápido, que cada vez eram maiores, e agora sim, sofria de cólica…. E eu me culpava muito… “se eu tivesse leite ele não teria cólica”, e também não me conformava… até que conversando com uma amiga ela me indicou a Dra. Nina – por quem tenho eterna e imensa gratidão. Chegamos na Casa Curumim quando o Matheus tinha 1 mês e meio.

Dra. Nina nos recebeu com sua espontânea tranquilidade e segurança, ela acreditou em mim, e para além de ensinar a técnica da relactação, e trocar o plasil que estava me deprimindo, me devolveu uma boa parte da minha autoconfiança.

Assim, com o peito cheio de amor e se enchendo de leite, finalmente, comecei a amamentar e maternar… Encontrei meu filho, nos encontramos… Havia quantidade suficiente e técnica suficiente que foram abrindo espaço para o encontro. A complementação diminuiu, algumas vezes foram dispensadas e Matheus não teve mais cólica. E para além disso, comecei a conhecer meu filho, seu ritmo, suas necessidades, minhas necessidades. Matheus mamou no peito até os 9 meses, quando mostrou todos os sinais do desmame e tivemos que lidar com essa nova etapa.

Para mim não foi fácil lidar com esse fato em nossa história, somente consigo escrever esse relato passado todo esse tempo, e ainda com muitas lágrimas…. Mas (que agora é ressignificado) tenho também orgulho de ter sido persistente até encontrar o que acreditava ser o melhor para o Matheus e assim eu pudesse deixar aflorar meu maternar… Tenho orgulho porque não desisti e acredito que essas história precisam ser compartilhadas para que outras mães não acreditem que as dificuldades de amamentação tenham que acabar na mamadeira. Tenho orgulho porque meu filho é muito alegre e sorridente e quando ele me olha…. sinto muito, muito amor.

Obrigada Dra. Nina!

Deixe seu comentário