6 ago Aleitamento Materno

Relato de Amamentação


Amamentando minhas trigêmeas

Por Sabrina Martins Schvarcz, mãe de Luana, 11, Alex, 10 e Melissa, Cecilia e Laura, 3 anos

Eu já tinha dois filhos quando recebi a notícia de que seria mãe de trigêmeas. Melissa, Cecilia e Laura vieram ao mundo para virarem minha vida do avesso, e me ensinarem que é preciso muita paciência, disciplina e amor para se criar cinco filhos nos dias de hoje.

A gravidez foi relativamente tranquila, talvez por ter acontecido naturalmente, sem nenhum tipo de tratamento. Como eu já tinha passado pela experiência de estar grávida, não tinha muitas dúvidas e incertezas, nada era novidade, a não ser uma dose a mais de cansaço e cuidados. E depois de trinta e quatro semanas e um dia de gestação, elas nasceram respirando sozinhas e pesando 1,890kg, 1815kg e 1540kg, e foram direto para a UTI neonatal.

image2

Mas na rotina de mãe de UTI, tudo era novidade. Eu não amamentei no primeiro dia, nem no segundo, nem no terceiro. Tive que assinar um termo autorizando minhas pequenas a receberem leite materno pasteurizado doado, pois eu ainda não produzia o suficiente para as três. Fiquei em choque, e só naquele momento é que me dei conta, de que eu não amamentaria minhas trigêmeas exclusivamente, em livre demanda, como fiz com meus outros dois filhos.

Foi difícil vê-las na mamadeira tão pequenas, e recebendo um leite que não era meu, ainda que por sonda. Mesmo indo ao lactário diariamente a quantidade de leite que eu conseguia extrair era sempre insuficiente para as três, então alternávamos de modo que a cada mamada uma delas recebesse meu leite. Conforme foram sendo liberadas para mamar diretamente no peito, começaram a receber também complemento de leite artificial. Nos horários de mamadas eu estava sempre lá, mas muitas vezes a escolhida só queria dormir, e enquanto eu tentava despertá-la para mamar, via a irmã bem acordada e mamando toda a mamadeira oferecida pela enfermeira. Na mamada seguinte a cena era a mesma, ainda que com outras bebês, e assim sucessivamente, de modo que algumas vezes, apesar de estar disponível em todas as mamadas, acabava o dia e eu não tinha amamentado ninguém. Nesse esquema de rodízio, foi difícil fazer com que elas realmente aprendessem a mamar. Tive dificuldades com a pega correta, especialmente com a Cecilia, que era menorzinha e passou mais tempo na UTI.

Apesar de tantas limitações envolvendo o processo de amamentação das minhas trigêmeas, em nenhum momento pensei em desistir só pelo fato que de teriam que receber complemento na mamadeira de qualquer jeito. Reunidas em casa depois de quarenta e um longos dias de UTI neo, fiz uma planilha para organizar as mamadas. Ia alternando entre um peito e complemento para a primeira, outro peito e complemento para a segunda, e só complemento para a terceira, de forma que cada uma das meninas recebesse a maior quantidade de leite materno possível.

Não tive dificuldades com a amamentação dos meus filhos mais velhos, mas dessa vez foi tudo diferente. Eu sentia que aos poucos, elas mesmas iam mamando cada vez menos no peito e preferindo a mamadeira. Algumas vezes a segunda não tinha paciência de esperar eu acabar a mamada da primeira, e acabava ficando só na mamadeira também.

Ao final de cinco meses alimentando as meninas em livre demanda as mamadas já estavam bem dessincronizadas, e somente uma delas ainda gostava de mamar no peito. Ainda assim, todos os dias eu tirava leite com a bombinha para oferecer para as outras duas. Com a diminuição do interesse por parte delas a produção de leite foi também diminuindo, até que aos seis meses a quantidade de leite era muito pequena perto do que elas mamavam, e todas já preferiam a mamadeira. O processo de desmame aconteceu gradativamente, e embora eu tenha ficado chateada na época, as meninas naturalmente desmamaram aos seis meses de idade. Para mim que já havia amamentado dois filhos exclusivamente até os seis meses e depois seguido amamentando até um ano, foi difícil, pois de certa forma me sentia rejeitada pelas meninas.

image1

Hoje elas estão com quase quatro anos e são meninas grandes e saudáveis, nem de longe lembram os bebês frágeis que eu vi pela primeira vez na incubadora de UTI neo. São crianças alegres, brincalhonas, cheias de vida, aprontam muito e raramente ficam doentes. Quando olho para elas hoje, pouco sinto da tristeza que permeou todas as questões relacionadas à amamentação do trio nos primeiros meses de vida. O que ficou desse processo, são as lembranças boas dos momentos de cumplicidade, do olho-no-olho, e a certeza de que fiz o que estava a meu alcance para que pudessem ter o melhor de mim. O mais curioso é que até hoje elas adoram ver bebês sendo amamentados, e sempre que brincam de bonecas, costumam oferecer o peito para suas próprias filhinhas!

Deixe seu comentário