25 nov Pós-Parto

TRISTEZAS NO PÓS-PARTO


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(Cena do filme “O Estranho em Mim”)

Por Denise de Sousa Feliciano

A imagem da mãe apaixonada que embala ou amamenta seu bebê pode ser contagiante. Não é à toa que tantos artistas e fotógrafos, renomados ou não, fizeram dessa cena a inspiração para belas obras de arte e ensaios fotográficos. Mas a arte é a edição da vida real. Nela o artista privilegia a inspiração que lhe captura, escolhendo as emoções que quer eternizar ocultando as demais.

A experiência de maternidade não é só encanto e serenidade, é a árdua construção de uma identidade nova na vida da mulher, na configuração da família, e no processo de tornar-se íntimo de um estranho que veio para ficar. Esse processo depende de fatores diversos, desde a matriz psíquica que a mulher traz consigo, de sua história, da história e o lugar desse bebê na vida de seus pais e da dinâmica do casal (ou não-casal) que engravida.

A intensidade emocional que todos esses fatores impõem à maternidade leva a mulher a esgotamentos emocionais e a demandas que em outras circunstâncias tem condições de dar conta por si mesma. É por isso que se faz necessário uma rede de acolhimento à mãe, para que ela possa também ser capaz de oferecer ao bebê o suporte emocional que estrutura sua saúde mental. O papel do pai é fundamental, mas também o apoio das famílias de origem são importantes, desde que não sejam invasivas e permitam que a mãe aprenda com sua própria experiência de ser mãe.

Por essa razão é que a mulher em geral se mostra mais fragilizada e vulnerável após o parto, sobretudo quando retorna da maternidade para sua antiga casa, que não é mais a mesma. A estranheza do ambiente que se torna desconhecido e, mais ainda, a estranheza de não reconhecer a si mesma são o motivo do estado entristecido que as mães costumam ter nesse período, chamado de baby-blues.

O chorar com frequência, magoar-se, emocionar-se e se sentir incapaz de tarefas aparentemente simples fazem parte desse estado mental, que é também o modo como a mãe se identifica com as vivências emocionais de seu filho e o compreende.

Infelizmente a falsa ideia de que maternidade é sinônimo de alegria e encantamento pode assustar as pessoas ao seu redor que – por medo de uma depressão -, tentam animá-la a qualquer custo mascarando as emoções genuínas e impondo-lhe uma alegria superficial que a colocam em grande solidão. O que poderia ser passageiro se fosse acolhido e cuidado, passa a se intensificar e pode se encaminhar para um estado depressivo mais preocupante.

Mesmo em casos mais intensos em que a mãe não se sente capaz de cuidar do bebê e/ou de si mesma, é fundamental que haja apoio e atenção das pessoas à sua volta que são referencias emocionais e em quem poderá se fortalecer.

No filme O Estranho em mim, podemos acompanhar o declínio emocional gradativo da personagem Rebecca que esperava com entusiasmo a chegada de seu bebê. Aos poucos se vê num estranhamento extremo que a leva a fugir de casa e de si mesma para um estado de encapsulamento silencioso. A solidão e a ausência de um olhar atento para sua gradativa fragilidade desencadeiam nela o que nomeia-se de depressão pós-parto. Mas é no extremo de seu desespero que o seu silêncio torna-se o grito por socorro que permite que ela receba ajuda e cura. Um alerta para todos nós.

Denise de Sousa Feliciano é psicanalista, doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela USP/SP, especialista em Psicopatologia do Bebê e Psicanálise com Crianças, vice-presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de SP. Atende na Casa Curumim.

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